Richarlison em crise no Tottenham e Endrick diante de novo desafio no Real Madrid
Dois brasileiros, dois gigantes europeus e problemas muito diferentes
Richarlison e Endrick atravessam momentos delicados na Europa, mas por razões distintas. Enquanto Richarlison chegou ao ponto de tentar romper o vínculo com o Tottenham, Endrick luta para transformar a confiança recebida de José Mourinho em minutos dentro de campo. Os dois vivem situações que podem definir seus próximos passos no futebol europeu.
Richarlison: de principal esperança ofensiva a jogador fora da Premier League
A situação de Richarlison no Tottenham se deteriorou rapidamente. O atacante, que está no clube desde 2022, comunicou durante a pré-temporada ao técnico Roberto De Zerbi que desejava sair. A decisão abriu uma janela para negociações, mas nenhuma solução definitiva foi encontrada antes do fechamento dos principais mercados.
O cenário ficou ainda mais grave quando o Tottenham não incluiu o brasileiro na lista de 25 jogadores para disputar a Premier League. Richarlison também passou a treinar separadamente do elenco principal. Na prática, isso significa que ele não está disponível para o campeonato nacional e precisa encontrar uma saída, ou uma solução jurídica, para voltar a atuar em nível competitivo de primeira linha.
A exclusão chama atenção porque Richarlison vinha de uma temporada individualmente importante. Em 2025/26, segundo os dados oficiais do Tottenham, ele fez 43 partidas e marcou 12 gols, sendo 11 na Premier League. Em um time que terminou a campanha anterior lutando contra o rebaixamento, sua produção ofensiva teve peso significativo.
O problema, portanto, não é simplesmente desempenho. Existe uma ruptura entre o jogador e o clube. De Zerbi deixou claro que pretende trabalhar com atletas comprometidos com a permanência, enquanto Richarlison deixou claro que deseja seguir outro caminho.
As tentativas de saída e o interesse do Vasco
Nos últimos dias, Richarlison esteve ligado a diferentes possibilidades. O Trabzonspor, da Turquia, demonstrou interesse e chegou a apresentar uma proposta informal que não agradou ao Tottenham. O Everton também apareceu como alternativa, mas o brasileiro recusou o retorno ao antigo clube.
No Brasil, o Vasco da Gama passou a ser uma possibilidade especialmente importante. O atacante tem forte ligação afetiva com o clube carioca, e a diretoria vascaína confirmou que tentou viabilizar sua contratação. Richarlison teria aceitado a possibilidade de um empréstimo até dezembro, mas o negócio encontrou um obstáculo regulamentar: o Tottenham já havia alcançado o limite de empréstimos internacionais permitido.
Com a janela brasileira prestes a terminar, o tempo se tornou um inimigo. A alternativa discutida passou a ser uma rescisão contratual. O estafe de Richarlison analisa recorrer à Fifa com base no conceito de “justa causa esportiva”, previsto no regulamento de transferências.
A tese é complexa. A regra considera, entre outros fatores, a participação do jogador em menos de 10% das partidas do clube durante uma temporada. Como a temporada ainda está no começo, os advogados precisam avaliar se as condições já permitem um pedido sólido. A exclusão da lista da Premier League, porém, aumenta a pressão sobre o Tottenham e fortalece o argumento de que Richarlison está sendo impedido de exercer sua atividade esportiva em nível principal.
O que pode acontecer com Richarlison?
O futuro imediato do atacante depende de uma combinação de fatores esportivos, jurídicos e financeiros. Se uma rescisão for reconhecida, Richarlison poderia ficar livre para buscar um novo clube, embora uma disputa dessa natureza também possa gerar discussões sobre compensações.
Se a rescisão não avançar, a situação tende a ficar desconfortável. O jogador permaneceria vinculado ao Tottenham, mas fora da lista principal da Premier League, com possibilidades reduzidas de participação em competições e treinamentos. Janeiro de 2027 aparece, nesse cenário, como uma janela natural para uma nova tentativa de transferência.
Há ainda uma questão financeira. O Tottenham não quer simplesmente perder um jogador contratado por uma quantia elevada. O clube avalia Richarlison em valores que tornam uma venda ao Vasco difícil, enquanto o clube brasileiro procura alternativas de pagamento e formato de negócio.
Endrick: confiança de Mourinho, mas uma concorrência enorme
A situação de Endrick é diferente. O jovem brasileiro continua pertencendo ao Real Madrid, recebeu a camisa 9 para a temporada 2026/27 e conta com a confiança pública de José Mourinho. O problema é que confiança não significa titularidade imediata.
Endrick sofreu uma lesão muscular antes do início de sua temporada oficial e ficou fora das quatro primeiras partidas do Real Madrid na LaLiga. Depois de voltar aos treinamentos, foi relacionado para a estreia do clube na Champions League contra a Inter de Milão, mas não entrou em campo. Mourinho havia avisado que, se fosse utilizado, provavelmente teria poucos minutos, porque ainda estava recuperando ritmo.
O treinador português também deixou claro que pretende usar Endrick no setor ofensivo, seja como centroavante ou pela direita. Essa versatilidade é uma vantagem, mas também revela o tamanho do desafio. O Real Madrid possui Kylian Mbappé como principal referência ofensiva, enquanto Vinícius Júnior e Jude Bellingham ocupam posições de enorme peso no sistema. Pela direita, Endrick encontra concorrência de Arda Güler, Brahim Díaz, Yan Diomandé e, quando estiver recuperado, Rodrygo.
Carlos Espí aumenta a disputa
Um dos elementos novos na disputa é Carlos Espí. Contratado do Levante por aproximadamente 25 milhões de euros, o atacante ganhou espaço durante a ausência de Endrick e marcou o gol da vitória do Real Madrid na estreia da LaLiga contra o Espanyol.
Isso não significa que o Real tenha abandonado Endrick. Pelo contrário. Mourinho foi um dos responsáveis pela decisão de mantê-lo no elenco durante a última janela, apesar de consultas de clubes interessados em empréstimo ou até transferência. O treinador acredita no potencial do brasileiro e entende que ele pode ser útil em mais de uma função.
Mas o futebol de alto nível é definido por minutos. Quanto mais Endrick ficar fora, mais difícil será construir uma sequência. Esse é o ponto central da situação atual.
A passagem pelo Lyon mudou o cenário
O empréstimo ao Lyon foi importante para Endrick. Depois de perder espaço no Real Madrid e passar por problemas físicos, o brasileiro encontrou na França uma oportunidade de jogar regularmente. Em 21 partidas pelo Lyon, marcou oito gols e deu oito assistências, recuperando protagonismo e confiança.
O desempenho também teve consequência internacional. Endrick conseguiu voltar a ser considerado pela Seleção Brasileira e participou do ciclo que levou à Copa do Mundo de 2026.
Por isso, existe uma contradição no momento atual: o empréstimo funcionou como estratégia de recuperação, mas o retorno ao Real Madrid recolocou Endrick diante do mesmo problema que havia provocado sua saída temporária: a dificuldade para conseguir minutos.
Real Madrid pode emprestá-lo novamente em janeiro
A informação mais importante desta sexta-feira é que o Real Madrid não fechou completamente a porta para um novo empréstimo. O futuro de Endrick será reavaliado antes da abertura da janela de janeiro.
Isso não significa que o clube já decidiu negociá-lo. A lógica é simples: se Endrick conseguir participar, marcar gols e conquistar espaço, a tendência será mantê-lo. Se continuar com poucos minutos, um novo empréstimo poderá ser considerado como forma de acelerar seu desenvolvimento.
A diferença para o caso Richarlison é fundamental. Endrick não está em conflito aberto com seu clube. Mourinho declarou confiança nele e trabalhou para impedir sua saída no último mercado. O problema é competitivo: existem muitos jogadores importantes disputando as mesmas posições.
Dois brasileiros, dois caminhos possíveis
Richarlison e Endrick representam duas faces diferentes da pressão sobre jogadores brasileiros na Europa. Richarlison vive uma crise institucional e contratual. Seu principal objetivo neste momento parece ser encontrar uma saída do Tottenham e recuperar o direito de jogar regularmente.
Endrick, por outro lado, ainda tem uma porta aberta no maior palco. Ele precisa recuperar totalmente a forma física, ganhar minutos e provar que pode transformar talento em produção dentro de um elenco recheado de estrelas.
Os próximos meses serão decisivos. Para Richarlison, a prioridade é resolver a relação com o Tottenham, seja por transferência, empréstimo ou eventual rescisão. Para Endrick, a prioridade é muito mais simples de explicar, embora difícil de executar: jogar.
Se Richarlison conseguir deixar Londres, poderá reconstruir sua carreira em um ambiente no qual tenha protagonismo. Se Endrick conquistar espaço em Madri, poderá finalmente iniciar a sequência que o Real Madrid esperava quando investiu no jovem brasileiro.
Mas existe uma conclusão comum: talento, nome e investimento não garantem minutos. Richarlison precisa de um clube que queira utilizá-lo; Endrick precisa convencer um dos técnicos mais exigentes do futebol mundial de que merece estar em campo. Até o momento nenhuma das duas histórias está resolvida.
